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25/11/09

APAGÃO FLORESTAL: UMA TRISTE REALIDADE NO BRASIL


APAGÃO FLORESTAL: UMA TRISTE REALIDADE NO BRASIL

A crise no suprimento de madeira no Brasil é uma realidade e vai se agravar nos próximos anos. Apesar dos alertas que os especialistas têm feito sobre esse fenômeno desde o início da década de 90, o setor público e a iniciativa privada não deram, até o momento, a devida importância ao assunto e nenhuma medida efetiva foi tomada para evitar essa situação. A tendência é que a falta de madeira aumente nos próximos anos, pois a expansão da área florestal não está acompanhando o ritmo de crescimento do consumo.
Os números não deixam dúvidas: em 2003, o déficit de madeira na região Sudeste foi de aproximadamente 11,3 milhões de metros cúbicos para tora de Pinus. Na região Sul, onde está concentrada a maior demanda, o déficit é ainda maior: 12,3 milhões de metros cúbicos. Para 2020 é esperado um déficit de 27 milhões de metros cúbicos, somente em toras de Pinus, segundo dados da Conselheira Luciana, que também é PhD em Bioquímica e especialista em biotecnologia vegetal, proteínas relacionadas a patogênese, defesa vegetal e biodiversidade.
Durante a realização do 8º Congresso Florestal Brasileiro, em São Paulo, foi demonstrado que o Brasil, a despeito de ter o segundo maior patrimônio florestal do planeta (a Rússia ocupa o primeiro posto) e de obter os mais elevados níveis de produtividade de florestas plantadas no mundo, importou da Argentina, em 2002, 35 mil metros cúbicos de madeira, sete vezes mais que em 2001. Em 2003, a previsão de importações era de 65 mil metros cúbicos.
É hora, portanto, de o setor público mostrar visão estratégica na condução da política florestal nacional. Até agora os sinais não são bons, mas cabe ao setor privado dialogar com o governo e cobrar uma estratégia que diminua os impactos do apagão florestal que se intensificará nos próximos anos, o que certamente comprometerá a competitividade da indústria florestal brasileira. Qualquer ação que seja tomada precisa ser rápida e eficiente dando tempo necessário para maturação de novos plantios.
Os incentivos ao reflorestamento, além de contribuírem para reduzir o impacto negativo do apagão florestal que se desenha, poderiam contribuir para a diminuição da pressão sobre espécies florestais nativas para fins madeireiros e produção de carvão vegetal para energia. A redução da oferta de madeira, além de afetar o preço da matéria-prima, afeta a competitividade da indústria florestal, comprometendo seu desenvolvimento como gerador de riquezas para o país. A sustentabilidade e a competitividade da indústria florestal dependem da expansão da base florestal.
O setor florestal brasileiro exerce um preponderante papel na economia nacional, movimentando US$ 20 bilhões (4% do PIB nacional) e gera 2 milhões de empregos diretos. Em relação às exportações, o setor proporciona divisas da ordem de US$ 5,4 bilhões, o correspondente a 10% de tudo o que o país exporta. Os impostos recolhidos com o setor estão na ordem de US$ 2 bilhões. Dados de 2001 mostram que no Brasil tinha 4,8 milhões ha plantados com Eucalipto e Pinus. Em agosto deste ano (2004), as exportações brasileiras de produtos florestais totalizaram US$ 504,104 milhões.
A silvicultura brasileira é considerada uma das mais evoluídas do mundo. A tecnologia empregada, aliada às condições edafo-climáticas, tem resultado em florestas com produtividade superior à de outros países produtores. A qualidade também tem sido demonstrada através das certificações ISOs e outras, que a grande maioria das empresas do setor possui.
O avanço das pesquisas é um aspecto promissor. O desenvolvimento de clones é bastante grande, principalmente em eucaliptos, adaptados às diversas situações de clima e de solo que o país apresenta. Isso tem propiciado alta produtividade em praticamente todas as regiões produtoras. Como ferramenta auxiliar aos programas de melhoramento florestal, alguns centros brasileiros desenvolvem pesquisas na área de biotecnologia moderna.
No Brasil desenvolvem-se dois projetos genomas de Eucalyptus, um em consórcio do Governo Federal e empresas do setor florestal e outro financiado pela FAPESP, com contrapartida das empresas do setor. A silvicultura está investindo em pesquisa tanto quanto a agricultura. Hoje a silvicultura é encarada como uma cultura de café, algodão, feijão, etc, isto é, a preocupação com a tecnologia, controle de qualidade e sustentabilidade, é muito alta.
Quando comparado com outros países produtores, o Brasil tem um custo de produção bastante baixo, isto é, o custo da madeira no ponto de corte, é relativamente baixo. Por isso, podemos dizer que já agregamos muito valor a nossos produtos, quando comparados à madeira in natura. Hoje temos vários produtos de base florestal, como por exemplo a celulose, papel, aglomerados, fibras de baixa, média e alta densidade, móveis, madeira serrada, carvão, etc. Se verificarmos os valores comerciais desses produtos, observamos que a agregação de valor é bastante alta, com altas variações entre os produtos citados. A tecnologia empregada hoje, principalmente na secagem, tem gerado madeiras serradas de alto valor agregado, principalmente na confecção de móveis de alto padrão, coisa que não acontecia no passado recente.
Atualmente, o Brasil ocupa o primeiro lugar em área florestal certificada em toda a América Latina, tendo ultrapassado a Bolívia. São em torno de 2,3 milhões de hectares de florestas certificadas, sendo 1,3 milhão em hectares de florestas naturais na Amazônia e outro um milhão de hectares de plantações em outras partes do país, principalmente de Pinus e Eucalipto.
Tempos atrás, existia uma percepção de que o setor florestal estava vinculado à degradação ambiental. Esta opinião tem sido modificada e atualmente existem fortes evidências, baseadas em estudos científicos, de que a degradação ambiental tem grande correlação com a pobreza, que leva à exploração não-sustentada dos recursos, incluindo a conversão do uso do solo (desmatamento) para outras atividades, em particular para a agricultura itinerante e não-sustentada.
Hoje acredita-se que a atividade de base florestal contribui para a sustentabilidade das florestas. A madeira é um produto renovável e se destaca nas formas mais modernas de análise ambiental, como por exemplo na análise do ciclo de vida. A principal importância desses investimentos é a diminuição da pressão sobre áreas nativas, com o aumento de oferta de madeira de florestas de rápido crescimento. Outro importante investimento seria para o reflorestamento com espécies nativas para fins de reposição florestal e preservação de rios com matas ciliares.
Autora
Luciana Di Ciero, engenheira agrônoma da Esalq e Conselheira da Pró-Terra - Associação Brasileira de Tecnologia, Meio Ambiente e Agronegócios

Betania Lins
betania.lins@printeccomunicacao.com.br

Fonte
Pró-Terra
http://www.proterra.org.br/

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